sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Garrafas, copos, corpos vazios. Mentes cheias. Chegaí, mais uma sexta-feira. Os problemas aparentemente desaparecem, ou são simplesmente máscarados diante de sorrisos falsos e pessoas estranhas que se dizem amigas, naquele momento.
Sucumbimos a praticamente todos os pecados. Nos deixamos igualar àqueles que julgávamos serem inferiores à nós mesmos.
Mal dormimos, mal acordamos, vemos o sol raiar intactos diante de ruas que dormem. Acordamos, quando ele já se foi. A cabeça pesa mais do que o coração sempre pesou. A ressaca vem, a fisiológica e também a moral. Chegamos reis, saímos súditos. Pobres, medíocres, podres. Do luxo ao lixo em menos de 12 horas. Mandamos pra dentro de nós aquilo que é chamado de escória. Tudo para parecermos mais normais do que certamente somos.
Felicidade fajuta. Acabam-se os mangos, e nem aguentamos mais as músicas. Olhar pra cara das mesmas pessoas rodando torna-se uma tortura. A cama nos quer, mas só a queremos depois que já não suportamos mais a dor dos nós pés dentro daqueles saltos imensos. Tudo lateja, tudo rapidamente amortece. A voz daquela cantora irritante que ninguém mais se sente feliz em ouvir todos os dias em todas as estações de rádio, ou todos os finais de semana em quase todas as baladas, torna-se uma lullaby naquele instante. Fingimos tão bem. Somos ali, amigáveis, sociáveis, simpáticos, amorosos, interessantes. Mas também somos interesseiros. Amigos são aqueles que dividem com nós, todos os copos, as bitucas, as pontas, os ratas.
Não mais importa se não nos lembramos dos nomes, ou até mesmo das faces daqueles que já passaram por ali, nos importa mesmo, aqueles outros que nos reconhecem.
O perfume vence, o bafo chega, os olhos se apagam diante de tanta futilidade misturada com outros adjetivos ruins. Não queremos mais luzes acesas. O escuro, o porão, o inferno é a nossa casa. Mais importante é ser aceito por aquele grupinho de pessoas populares e um tanto quanto imbecís, do que por aqueles que possuem algo de bom no coração.
Estamos aqui, com o intuito de enlouquecer de forma não saudável para que possamos esquecer dos problemas que possivelmente foram largados em casa.
A felicidade instantânea e enganadora só acaba quando a última estrela estiver apagada.
Até então, somos pecinhas de um jogo torpe, fingindo termos a moral que já foi há muito tempo.
Qualquer buraco torna-se um paraíso perdido. Não nos culpamos por ter deixado em casa, as pessoas que possivelmente mais nos amam. São velhas, caretas, quadradas. A rua será sempre mais atraente do que o nosso quarto aconchegante com uma cama limpinha. A sujeira nos chama. Deus ali, certamente não habita. Mas na real, quem liga? A consciência não pesa, somos meras pessoas sortudas que nasceram sem esse dom. O suor respinga e talvez até se misture com o gosto amargo das bebidas mais cobiçadas. O empurra-empurra não atrapalha, e os esbarrões servem para testar nossa habilidade em cima daquele XV.
O lugar esvazia, as músicas pioram, as pessoas cansadas mais do que um dia puderam imaginar que ficariam vão embora. A moça do caixa já boceja, o primeiro raio solar desenha-se no céu. O táxi já espera aqueles que ainda possuem um pingo de amor à vida. Os carros estacionados já estão com os vidros cheios de sereno. Os alarmes apitam. Nós queremos chegar vivos em casa, mas nem sempre isso acontece...
Chegamos, abrimos a porta e damos de cara com os problemas sentados na sala nos esperando. E nem são nossos pais, porque esses, ah, esses já desistiram há tempos... A fé depositada é a mesma que se esvaiu. Achamos que os problemas já tinham ido dormir, para aparecerem somente no domingo de manhã, mas não. Eles nos perseguem como espíritos incansáveis e abandonados, sem saber que somos apenas ratos, voltando para nossas tocas.

3 comentários:

Débora. disse...

Deu um viés dramático e de uma realidade sóbria pra um fato comum.
Intenso.
Ficou muito bom. Mera opinião.

Felipe disse...

Breves palavras ácidas.

Realidade crua e despida.
Muito bonito, menina.

@felipesilvaa

Anônimo disse...

Nossa parabens,alem de linda inteligente.
Raridade nos tempos atuais